quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O garoto que não sabia

Do outro lado do espaço, entre o planeta dos que se perderam e a galáxia dos que nunca se encontraram, mora um garoto que tem mais de 20 anos ou, quem sabe, um idoso com quase um século de memórias. De repente, atingida por meteoros, a gravidade dos seus sonhos puxou o rapaz para o planeta Terra... Adeus, universo de noites em baladas sem fim; os robôs que nada sentiam foram deixados pra trás. Porém, ele não sabia que, mesmo transformando-se em humano, poderia continuar visitando a lua e brincando com o sol – e que, inclusive, é isso que nos torna de carne e alma. Ele não sabia que ainda podia se vestir de estrelas.

Já no Planeta Azul, passou a morar num edifício gigante, um arranha-céu de dezenas de andares, situado bem no meio de seu mundo. Sem elevador e sem ter como descer do mais alto patamar de si mesmo, o menino vivia à espera de alguém que pudesse libertá-lo da torre, onde seus traumas e medos o assombravam, pintados na parede. O garoto não sabia que tranças só salvam nos contos de fadas, nem imaginava que, para alcançar a liberdade, seria necessário se entregar num salto pleno e sem volta, no qual seria possível prever se os pés agüentariam o impacto de tocar o solo da realidade ou se os olhos suportariam o clarão de enxergar a luz do dia.

Ajudado por um homem, pulou, e, mesmo com o sorriso cheio de escoriações e um abraço quase aleijado, conseguiu se recompor. Entre caixas eletrônicos que respiravam e espantalhos sem cérebro, o garoto encontrou um leão, suficientemente corajoso para compreendê-lo – talvez, um bondoso homem de lata, ávido por conseguir encontrar alguém que lhe desse um coração ou o ajudasse a reconstruir o seu, tão destruído pelas enchentes, tão devastado pelos terremotos. Mas, o garoto não sabia como retribuir a quem lhe estendera a mão... E, por não ter aprendido como ser solidário, ainda lhe diziam que ele, sim, é quem era o burro.

Convencido de que não prestava para nada, o garoto que não sabia decidiu que o melhor era voltar para sua torre e conviver em seus becos escuros, mesmo que isso lhe matasse a alma, mesmo que isso lhe custasse a vida. No entanto, após tentar, inúmeras vezes, retornar para o edifício, percebeu que é impossível voltar atrás no caminho, que os rastros do ontem desaparecem um após o outro, e que o passado era um lugar no qual ele jamais poderia por os pés novamente. Infelizmente, ele não sabia que as lágrimas choradas poderiam construir pontes para o futuro e que as dores, cicatrizadas, representariam o aprendizado que faz nascer flores onde o presente já parece agonizar.

E, assim, o garoto, que não sabia irrigar o próprio solo, resolveu partir e, como um sem terra, começou a construir sua moradia na vida dos outros. Tornou-se um apaixonado pelas sombras, alguém que sentia o coração palpitar ao simples vulto do carinho de alguém, que não sabia que amor só nasce em terra que foi preparada e que admiração e confiança necessitam de sementes boas para brotar. O rapaz seguiu amando, ora alguém que apenas tinha passado para lhe deixar uma carta, ora alguém que somente tinha surgido para lhe roubar um sorriso. Novamente machucado e impedido de colher, visto que a aragem foi toda feita em território que não lhe pertencia, o garoto foi expulso da vida de pessoas que amava.

Hoje, o garoto procura um modo de se reconstruir, mas ainda não percebeu que ninguém irá lhe trazer os pedaços que lhe faltam, afinal, cada um de nós também tem suas próprias partes para recolher. Agora, deste lado do espaço, entre o planeta dos que querem se encontrar e a galáxia dos que nunca desistirão, mora um garoto que não tem idade, que não conta seu tempo em anos e que, embora continue sem saber em que universo ficou, já descobriu, pelo menos, que o sol sempre volta para os que não se entregam. E a felicidade também.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Velha roupa colorida

É provável que os matusaléns de plantão e os amantes de uma boa safra da MPB se lembrem do título desta crônica, “Velha roupa colorida”. Trata-se do nome escolhido por ninguém menos que Belchior para resumir uma de suas mais célebres composições. A letra desta música exala poesia, entre versos que, em minha opinião, reivindicam a volta de atitudes que nos façam jovens, independente da idade que temos. “E o que há algum tempo era jovem novo/ Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer/ (...) No presente a mente, o corpo é diferente/ E o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

Disso, presumo: precisamos urgentemente tirar nossa velha roupa colorida do armário. Creio que, ainda na longínqua década de 80, Belchior já estivesse criticando essa (falsa) atmosfera de modernidade na qual vivemos, onde pretendemos retardar o envelhecimento, mesmo passando dezenas de horas por mês em frente ao computador. O compositor parecia ter a visão do que seria o futuro que, hoje, anos depois, tornou-se realidade. Cá estamos nós, com nossas velhas roupas coloridas jogadas no armário, com nossos sonhos de ser jovens mofando dentro das gavetas, acreditando que a tecnologia vá, enfim, nos salvar do tempo.

Enquanto nos preocupamos com isso, os dias correm e, quando nos damos conta, já era: “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Então, ao invés de procurarmos nos colorir com outras esperanças, insistimos em ir às ruas trajando atitudes maltrapilhas, que nos vestem como empresários mal amados. Saímos passeando pelo shopping, exalando um ar de gravata-borboleta, que nos embeleza por fora, mas nos sufoca. Vamos às baladas usando os vestidos mais caros, que nos emprestam a pose de quem só sabe viver encima do salto, de quem não é capaz de suportar o impacto de pousar os pés descalços sobre o chão.

A velha roupa colorida de Belchior está largada por aí, jogada num canto qualquer, prestes a virar pano de chão. É a poesia, o gesto descompromissado, o abraço que não pode ser comprado, o sorriso que não se vende. São atitudes que funcionam como Renew para o coração: evitam o aparecimento de rugas. São gestos que já saíram de moda, roupas que só foram usadas por quem realmente soube se aproveitar delas, mas que não perderam o brilho nem desbotaram, afinal, o que é colorido de verdade não se deixa vencer pelo preto e branco; o que já foi arco-íris nunca perderá as sete cores.

Pelas praças, ninguém se reconhece mais, e não para de crescer o número de pessoas que só querem ser abraçadas pela webcam. Salas virtuais de bate papo estão mais lotadas do que saraus, livros viraram tablets, poetas transformaram-se em chatos de galochas, crianças ganham um celular antes mesmo de aprenderem a se comunicar pelos olhos. O Twitter está aí, multidões me seguem, mas não sabem quem sou nem para onde sou capaz de levá-las. Em pleno florescer das novidades, falar em velha roupa colorida lhe parece absurdo? Pois é por isso que precisamos todos rejuvenescer.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dia de gente

“Hojeeeee! Hoje é meu dia de gente... Hojeeeee! É proibido dormir...” Quando ela acordou, Paula Toller estava cantando os versos desta música. O rádio sobre a penteadeira dormira ligado em sua estação FM favorita, e era de lá que saía o doce berro da vocalista do Kid Abelha. Sentiu-se convidada pela melodia, percebeu seus olhos dançando no ritmo da levada e, num relance, decidiu: “Hoje também será o meu dia de gente”. Olhou no relógio e notou que ainda não passava das sete da manhã. Mesmo assim, saltou, com toda empolgação, da cama e foi bem depressa para o banheiro. “Como é bom sentir-se gente de vez em quando”, sussurrou, encarando-se no espelho.

Partiu pra cozinha e abriu a janela com um sorriso mais iluminado do que o sol, abriu-se para o dia como se seus cômodos estivessem desarejados há muito tempo, como se seu ânimo estivesse precisando urgentemente ser aquecido. Recepcionou as primeiras horas da manhã como se fossem as últimas, valorizando cada segundo mais do que usualmente valoriza o dinheiro. “Afinal, é isso que gente de verdade faz: cuida do tempo tendo consciência do ouro que tem em mãos, não desperdiça segundos fazendo questão de poucos centavos, não troca o valor de suas preciosas horas nem pela maior cifra do mundo. Gente que ainda não virou um caixa eletrônico ambulante, que não transformou suas palavras em cédulas, sabe que falta faz um dia”, imaginou.

Decidiu que não ia tomar café. Queria se alimentar de algo que não pudesse ser mastigado, e sim sorvido, como o ar. Resolveu pegar um livro e devorou poesias, encontrando proteínas e sais minerais em cada um dos versos que lia. “Era desses nutrientes que minha alma estava precisando”, descobriu, enquanto saboreava uma farta porção de Clarice. “No meu dia de gente, estou percebendo o quanto minha alma estava desnutrida. A partir de agora, quero sempre complementar minha nutrição com boas doses de beleza. Para isso, vou procurar passar mais tempo com os amigos e menos no Facebook, olhá-los nos olhos, quero me nutrir ajudando-os a resolver suas inseguranças e comemorando os momentos em que forem fortes – e fracos. Reciclarei o meu lixo percebendo o que há de belo no outro, o jeito como sorri, o modo como afasta a lágrima que acabou de cair”, prometeu.

Antes de almoçar, foi até a pracinha da esquina, decidida a perceber coisas que só gente de verdade tem a capacidade de enxergar. Viu a forma esplêndida com que o vento esparramava as folhas, encontrou duas amigas se abraçando e, ao se deparar com um casal de velhinhos caminhando, descobriu o quanto dura a eternidade. “Isso sim é ser pra sempre: quando o amor não vira ruga dentro de nós e a fraqueza dos ossos nos debilitam, mas nosso coração continua forte, apoiado num sorriso que, vá lá, já está de denturas, no entanto, continua tão belo quanto foi um dia”, constatou.

Na paisagem, alcançou um andarilho, que tinha o hábito de passar as noites dormindo num caixote. A gente de hoje não tem tempo para notar meros detalhes como esse, está sempre tão atrasada para algum compromisso que pisoteia os que vivem pelas ruas, como se nem sequer fossem... gente.

Foi até o homem, que diziam por aí ser jovem, embora a juventude já estivesse afastada há tempos de suas atitudes, de seus sentimentos. Cogitou dar uma esmola, entretanto, hesitou. “Gente que é gente não faz só isso: também doa um pouco de atenção, também se entrega como dízimo. Por isso, hoje não compartilharei apenas umas moedinhas que estavam jogadas no fundo da carteira; algo tão simples todo mundo faz. Vou fazer diferente: ao invés de abrir as mãos somente para dar o dinheiro, as abrirei também para um carinho e para um afago. Ao invés de abrir a boca para criticá-lo e dizer que fede à pinga, tentarei abri-la para dizer ao mendigo algo que preste, que valha até mais do que uns centavos. Hoje, eu serei a esmola”, desafiou-se.

E, assim, ela passou o dia: fazendo gestos que são exclusivos de gente genuína, e não dessas que falam de Deus nas igrejas, mas rejeitam homossexuais e apóiam a matança de prostitutas; dizendo coisas que só gente com coração tem coragem de dizer, e não espalhando boatos e usando a língua para ferir o vizinho; inundada por sensações que apenas gente de carne e coração consegue, e não banalizando os sentimentos, achando que quem chora está mexicanizando a cena. Quando a noite chegou, sentiu-se satisfeita por ter conseguido algo tão difícil nos dias de hoje: ser, simplesmente, humana. Poder dramatizar. Contemplar o que está diante da janela. Ao apagar a luz e se deitar, sonhou: “quem me dera que eu conseguisse – e que me deixassem – ser gente todos os dias”.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Bala perdida

Sempre tive noção de que estamos, hoje em dia, cada vez mais vulneráveis ao que os outros dizem. Porém, só recentemente é que descobri – e senti na pele – o quanto. Fui vítima de uma fofoca, de uma flecha que dispararam contra mim e que me atingiu em cheio. O alvo foi certeiro: uma relação profissional que eu começava e que, de repente, foi manchada pelo veneno de alguém, que, muito provavelmente, jamais saberei o nome. Foram apenas comentários, mas, sem dúvidas, causaram estragos como se fossem bombas. Uma Hiroshima inteira de amizade foi pelos ares em poucos segundos.

Com isso, cheguei à conclusão de que quase todos nós, em algum momento de nossas vidas, já fomos atingidos por palavras que, disparadas ao relento, nos acertaram quando menos esperávamos. Não fui o primeiro e com certeza não serei o último. Me arrisco a dizer que se eu fizer uma pesquisa na esquina será impossível encontrar uma pessoa que nunca tenha levado este tiro, nem que seja de raspão.

Talvez algumas tenham sido atingidas apenas de leve, ficaram machucadas, mas não chegaram a perder um braço de confiança ou algo pior. No entanto, outras foram metralhadas, estavam no meio do tiroteio de comentários maldosos e nem sabiam, eram a ‘capa’ do jornal do bairro e nem imaginavam. Essas, perderam bem mais do que uma companhia para ir à festa ou algo menor; viram seus sonhos sofrerem com paradas cardíacas, sua reputação ir parar num quarto de CTI, sua dignidade respirar através de aparelhos. Há, ainda, aquelas que foram vítimas fatais: perfuradas pela língua alheia, testemunharam sua alegria sangrar até o fim.

“Onde há fumaça há fogo, acreditam todos, o que transforma toda fofoca numa verdade em potencial. Não há fofoca que compense. Se for mesmo verdade, é uma bala perdida. Se for mentira, é um tiro pelas costas”. Neste trecho de uma crônica de Martha Medeiros, ela está coberta de razão. O cara é casado e, depois do expediente, para num restaurante para dar força à amiga do trabalho, que está em frangalhos porque se separou do marido. Em instantes, passa a dona Clotilde, vizinha do homem, e avista a cena. Pronto! Em instantes, o gesto de amizade, que não tinha nenhuma malícia, transforma-se em motivo de fofocas, que se espalham como rastejo de pólvora, e, horas depois... Bang, bang, bang! O rapaz foi atingido e o casamento dele sofre sérias perfurações. E o pior é que nem sequer podemos prever de onde virão os tiros.

E, assim, vamos vivendo, na iminência de, a qualquer momento, nos surpreendermos com uma bala perdida, com algo que inventaram sobre nós e está prestes a nos ferir, com um comentário falso que chegou aos ouvidos do nosso chefe e que nos custará o emprego, com o silêncio dos tiros que, disparados ao pé do ouvido de nossos amigos, farão com que a confiança que eles têm em nós se machuque. São tiroteios aos quais sobrevivemos – ou não – todos os dias, pequenas violências que nos acertam no momento em que menos esperamos. Quando estamos distraídos e nos sentindo protegidos por nossos coletes à prova de fofoca, uma bala perdida surge do nada e... Bang! O tiro nos pega pelas costas.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Quem matou Amy?

A morte de Amy Winehouse virou o prato principal da semana. Principalmente nos programas de televisão, os degustadores de uma boa tragédia começaram a surgir de todos os cantos, lançando mão de seus recursos culinários para dar seus pitacos sobre o motivo que ceifou a vida da cantora britânica. Diante dos comentários que ouvi acerca do fato, até então, apenas um me cheirou bem: o do colunista da Folha, João Pereira Coutinho – os outros se pareceram mais com oportunismo.

“Morreu Amy Winehouse e os moralistas de serviço já começaram a aparecer. Como abutres que são. Não há artigo, reportagem ou mero obituário que não fale de Winehouse com condescendência e piedade. Alguns, com tom professoral, falam dos riscos do álcool e da droga. (...) O sermão é hipócrita e, além disso, abusivo. Começa por ser hipócrita porque este tom de lamentação e responsabilidade não existia quando Amy Winehouse estava viva e, digamos, ativa. Pelo contrário: quanto mais decadente, melhor; quanto mais drogada, melhor; quanto mais alcoolizada, melhor”, escreveu.

O colunista me despertou para uma nuance que passara despercebida aos meus pensamentos. Os mesmos fãs que, hoje, choram a morte de sua diva, fizeram questão de vaiá-la, sem dó nem piedade, num show que ela realizou na Sérvia, há pouco mais de um mês. Juntando este fato com as palavras de João Pereira, cheguei à conclusão de que enquanto a cantora estava no centro do picadeiro, fazendo a alegria da platéia por meio de quedas vexatórias e piruetas motivadas pelo álcool, ninguém se mostrava preocupado com os sentimentos dela nem com suas crises existenciais. Pelo contrário. Amy era enxergada como uma espécie de mulher gorila, que estava no espetáculo circense da mídia apenas para divertir o público e aumentar a vendagens de revistas e jornais. Nem de longe a artista era encarada como um ser humano.

Assim, me pergunto: quem matou Amy? Será que fomos nós? Talvez, assim como ajudamos a matar um amigo que, de pileque, é incentivado a tornar-se o palhaço da turma. A galera ri e acha graça dos tombos do colega bêbado, até ele ser atropelado enquanto ia pra casa e morrer ou ter uma cirrose. Aí, então, o Fulano vira vítima e nós nos inocentamos, lançando ao cadáver olhares cheios de piedades, aqueles mesmos que, horas atrás, só estampavam deboche e um leve desprezo. Ou será que quem matou Amy foi o discurso daqueles que incentivam a matança nos presídios e zombam dos assassinos que são tratados como bicho, desprezando que seus filhos também matam gays e sonhos pelas ruas?

Fico pensando na hipocrisia e no abuso que tomam conta de nossas vozes quando lamentamos a morte de Amy Winehouse, mas continuamos contribuindo para que “outras almas afogadas” se tornem as protagonistas do próximo escândalo que fará nossa alegria. Adoramos ver o circo pegar fogo, até que alguém que amamos vai para a fogueira. Só neste momento é que nos damos conta da nossa condição de assassinos, que não arrancam sangue com armas de fogo nem com facas, e sim com palavras. Deboches e piadinhas de mau gosto também são um modo de matar.

Me chamem de lunático, porém, para mim, quem matou Amy não foram somente as drogas nem apenas as biritas. Fomos também nós e nossa mania de continuar batendo palma para os palhaços continuarem nos divertindo, sem nos dar conta dos riscos que isso envolve. Agora, fingindo que não é nada com a gente e dando um descanso à consciência, deixemos que os abutres de plantão façam a festa sobre o cadáver de Winehouse. Isso só prova que há muitos corações por aí fedendo à carniça.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Aos desconhecidos

Hoje, Dia do Amigo, tem uma ideia que não larga do meu pé. Ou melhor, da minha cabeça. Mais do que sentir vontade de homenagear os amigos que tenho, que me ajudam a remar o barco e são pedaços do céu, meu pensamento está viajando em busca daqueles que nunca encontrei, dos navegantes que ainda não desembarcaram no meu cais, ou de quem um dia nadou pelas minhas águas, mas naufragou cedo demais, antes mesmo que desse de tempo de eu salvá-lo.

Penso nas pessoas que vejo apenas nos jornais ou nas capas de revistas, naquelas de que não sei nada além do nome ou que vivem nos apartamentos pela cidade, e que nem sequer sabem da minha existência. O que será que achariam do meu jeito? E eu, o que pensaria da forma como costumam sorrir? Será que nos daríamos bem, que iriam querer fazer festa surpresa para mim no meu aniversário? Ou nossas estrelas não combinariam, fazendo com que nosso encontro provocasse o estouro de um meteoro?

Só o que sei é que, agora, sinto falta desses amigos: dos que nunca foram nem serão meus. Dos que se apagaram e dos que nem chegaram a se acender. Dos que se foram e dos que partiram sem se despedir. Dos que ficaram pra trás e dos que nunca encontrei pela frente. Dos que eu não soube valorizar e dos que não me reconheceram ali. Sinto falta dos amigos que não atravessaram a ponte, que ficaram do lado de lá e eu só consigo acompanhar de longe. Meu coração lamenta a ausência dos amigos que não vieram, dos que nunca bateram à minha porta, dos que fingiram não estar em casa quando eu toquei a campainha da vida deles. Nem pela janela me deixaram entrar.

Choro a dor de reconhecer o quanto de gente nunca poderei amar, o número de páginas em que jamais escreverei meus sentimentos de eternidade. Queria do meu lado, além dos meus heróis, também os amigos frágeis e rachados, que me dessem trabalho para ajudá-los a colar suas partes, que tivessem paciência para me ajudar a remontar as minhas. Queria ouvir as vozes de novos amigos, saber qual a música de que mais gostam, ser lembrado no meio de uma tempestade, ter quem me ouça quando a chuva no telhado abafar o som silencioso do meu grito.

Hoje, deixo minha homenagem àqueles amigos que não me conhecem, dos que não sei onde moram nem eles têm noção da minha localização, de em que rua de mim estou. Deixo a saudade de quem só vejo passar voando, dentro dos carros, sempre atrasado para algum compromisso, apressado demais para perceber a existência dos que caminham pela calçada. Deixo um espaço vazio, além dos muitos que já estão muito bem ocupados, obrigado. Deixo meu endereço: moro bem ali, perto da estação onde você não desceu, ao lado da praça que você não visitou, nas linhas da poesia que você nunca leu, largado na prateleira que você deixou encher de poeira, dentro de um corpo que, antes de parar de respirar, espera conhecê-lo.

Finalmente, acima de tudo e saindo fumaça da chaminé, me deixo como ponto de referência. Para me encontrar, vire a esquina da avenida em que ainda sobrevivem os poucos sonhadores, os que andam como andarilhos, porque são considerados lunáticos, recitando baboseiras de Clarice e trechos estapafúrdios de Saramago. Envolto em cobertores de palavras e aquecido pelos versos de Chico, eu estarei te esperando.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Depressa demais

Embora eu não seja muito fã daqueles que usam Deus como um caminho para o estrelato e para conseguir alguns milhões à custa da fé do povo, confesso que o padre Fábio de Melo entrou para a lista dos pensadores que admiro. O discurso adotado pelo religioso é encantador: ele nos apresenta a um deus mais possível, digamos. O criador que o líder católico nos revela é menos rancoroso e mais parecido com as mães, não necessita de louvores 24 horas por dia para ser rei nem carece de tronos para governar quem quer que seja; está acessível na riqueza e no coração de quem ama, ao alcance de um abraço, sem burocracias ou honras demais para nos receber em seu colo.

Além disso, o lado escritor de Fábio de Melo também me fez admirá-lo. Li “Mulheres de aço e de flores” e “Cartas entre amigos”, dois livros que o padre escreveu, e gostei muito do que encontrei nas obras. Entre tantas, uma frase que desacelerou meu coração foi: “Eu queria te agradecer pelas inúmeras vezes que você me enxergou melhor do que sou. Pela sua capacidade de me olhar devagar, já que nessa vida muita gente já me olhou depressa demais”.

Bingo! O padre tocou em um ponto que a maioria das pessoas tem sido negligente: a pressa. Temos vivido apressados demais, sem tempo nem para resolver nossos assuntos pessoais, que dirá para olhar, com calma, para os lados, para quem nos cerca. A mulher é casada há dez anos, mas nunca reparou que, além da pinta no canto da boca, o marido também outras marcas que mancham seu sorriso. Dois jovens convivem num ambiente de trabalho e, embora se vejam todos os dias, nunca se repararam, nem sequer sabem que cor tem o olhar azul de quem parecia ter os olhos escuros. Olhamos depressa demais para os outros, nem sequer olhamos para nós mesmos.

Buscamos enriquecer a todo custo, deixamos de sonhar e só nos concentramos em comprar uma casa na praia, só pensamos em passar no vestibular, esquecemos de ir à conversa de pais na escola dos filhos para chegar a tempo numa reunião de negócios, abandonamos a poesia para conseguir ir à aula de inglês, deixamos de lado os amigos para não faltar à academia... Atropelados pelo tempo, encaramos as pessoas como se fossem páginas de jornal: basta uma olhadinha rápida para captar o “resumo da ópera” e olhe lá. O sorriso, as virtudes, os abraços, uma conversa pausada, enfim, tudo passa depressa demais diante de nossas janelas, como se viajássemos a 120 km/h pela vida e as paisagens ficassem embaçadas no exato momento em que passamos por elas.

Olhar devagar é perceber que sua filha pode até não cantar bem, mas daria uma ótima arquiteta. Olhar devagar é ter tempo para um amigo, que não vai te pagar por aquela conversa, no entanto, vai enriquecê-lo com jóias de verdade. Olhar devagar é insistir no sucesso daqueles que já desistiram, é se encarar no espelho e querer saber, sem pressa, quem ele está mostrando. Olhar devagar é notar o choro de quem parece sorrir, é observar sinais de temporal no horizonte daqueles que parecem fazer sol, é dar um stop e, frente à paisagem, contemplá-la, lentamente, como se os ponteiros do relógio de dentro tivessem parado e o tempo fosse nosso companheiro, e não um inimigo, como insistimos em vê-lo.

Mas, nem sabemos o que é stop. Vivemos olhando depressa demais, amando depressa demais, comendo depressa demais, esquecendo depressa demais, rejuvenescendo depressa demais, envelhecendo depressa demais, correndo depressa demais. Então, a vida passa num piscar de olhos, e, mesmo respirando, acabamos morrendo. Depressa demais.