sábado, 14 de agosto de 2010

A vida em tinta fresca

Cotidianamente, é normal passarmos por algum lugar recém pintado e perceber alguma placa ou aviso, indicando: “Não encoste! Tinta fresca”. Caso algum desavisado – ou abelhudo – toque no local, suas mãos ficarão sujas de tinta. Há dias em que a vida, recém colorida por algum motivo, também está assim: soltando tinta por onde passa.

Nossos dias são murais a espera da obra prima que iremos desenhar neles, a cada manhã em que somos agraciados com o privilégio de levantar da cama. É lamentável que o corre-corre do dia a dia esteja deixando nossas horas cada vez mais acinzentadas, nossos sorrisos cada vez mais desbotados, nossa esperança cada vez mais preta e branca. Todo olhar é suficientemente capaz de pintar e de perceber algo eterno na parede da vida; basta um pouco de doçura para perceber isso.

Vejamos, então, as situações em que temos a nítida impressão de ter diante de nossos olhos uma obra prima, parecida com uma raridade de Pablo Picasso, mas que está ao alcance de nossa visão diariamente.

Com que tintas se colore o espetáculo do beijo de quem nos ama? Repare como tudo parece vermelho, desenhado à mão, retocado, minuciosamente, em cada detalhe. Nos comportamos como se posássemos para alguém que nos desenha por inteiro, o que não deixa de ser verdade, já que nossa imagem ficará gravada na retina do ser amado, pendurada na parede do coração. Não há nada mais belo do que o desenho de um amor verdadeiro.

E uma conversa agradável, com alguém que presta atenção até nos mínimos detalhes de sua personalidade? Perceba como podem ser bonitos os pincéis em que cada palavra pode se transformar se você souber como utilizá-las. O papo vai fluindo e a vida lá, brilhando em tinta fresca, lambuzando quem sabe se colorir com a eternidade de uma das paisagens mais bonitas da vida: o sorriso de quem se ama. A única coisa que nos imortaliza - mesmo - é a memória de quem amou a gente.

Hoje, por exemplo, acordei ofuscado e em tons escuros. A presença de alguém especial e um torpedo entrando no celular modificaram o cenário, tingindo em tons coloridos o meu dia, que parecia que acabaria tão apagado.

O belo está contido no nosso olhar, na nossa concepção e capacidade de pintá-lo como tal. Olho para a rua e vejo a possibilidade de enxergar inúmeras galerias, pessoas onde poderei pintar o mais lindo quadro ou deixar passar em branco, deixando desbotar a cor que seria crucial para iluminar a vida de alguém. Olho pela janela e vislumbro caminhos, a vida em tinta fresca, convidando-me para ser um pintor que sabe enxergar tintas que só o coração é capaz de ver. Olho para mim e me vejo colorido, vibrante. Nada disso existe. Meus olhos, sim, é que insistem em ir longe demais.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O primeiro dia

Ela é jovem, tem 20 anos e, por motivos alheios à sua vontade, foi obrigada a interromper os estudos. A moça estava cursando o quarto período da faculdade de Psicologia, quando, novamente, viu parte dos seus sonhos naufragar. Ela necessitou de muito fôlego para continuar nadando e não afundar junto com eles.

Querendo saber como havia sido o primeiro dia de aula do companheiro, a jovem mandou um torpedo para ele, que não a respondeu. Em seguida, ligou para um amigo e o questionou sobre o mesmo assunto. Ele não demonstrou muita empolgação em suas palavras e limitou-se a dizer que tudo fora “normal”.

Se sentindo um pouco incomodada com o aparente descaso dessas pessoas, ela pegou papel e caneta, sentou-se e, para eles, começou a escrever.

“Hoje pela manhã, quando vi nos jornais e na TV que as férias acabaram, notei um certo desconforto em meu peito, pois as minhas, assim como aquelas visitas incômodas que chegam para atrapalhar a melhor parte do almoço, resolveram permanecer mais um bom tempo comigo. Pra ser bem sincera, nem sei quando poderei despachá-las, de mala e cuia, para bem longe. Vai ser muito difícil não escolher um caderno novo para esse semestre.

Eu, assim como milhares de jovens espalhados pelo Brasil, gostaria de estar, agora, pensando nas aulas que terei amanhã, nos professores novos que, na situação em que me encontro, permanecerão desconhecidos. Se eu pudesse, teria dado um basta em meu descanso, indo correndo ao encontro do que me espera atrás da próxima porta, que, por sinal, está trancada para mim. Por hora, serei obrigada a deixar de lado o quadrinho escolhido para por o meu diploma, que permanecerá vazio por uns tempos – também assim ficará meu coração.

Portanto, percebendo um certo descaso da parte de vocês quanto ao primeiro dia de aula, gostaria apenas que percebessem grande beleza nisso. Embora pareçam horas de estudo como outras qualquer, vocês estão tendo a oportunidade de, mais uma vez, regressar aos estudos, de dar continuidade ao processo, de ver o sonho continuar respirando. Na contramão disso, vou eu, carregando o cadáver do que um dia cultivei, mas que agora só me resta enterrar em algum lugar colorido de minha alma. O epitáfio deste sonho será assim: ‘Foi bom enquanto durou’.

Saibam que os amo e que estou muito feliz por vê-los cada vez mais próximos do alto da montanha, a qual vocês escalam com tanto sacrifício, perseverança e paciência. Avariada por conta da queda, vou, aos poucos, reservar forças para tentar também subi-la novamente. Apenas peço que não se entreguem à banalização do sublime: cada instante dessa escalada merece ser devidamente valorizado, cada novo passo merece ser comemorado como um grande salto.

Hoje, não conheci professores diferentes, não tirei meus livros do armário nem me preocupei em sair do trabalho correndo, pois sabia que a van partiria mesmo se eu não chegasse. Aproveitem bem o primeiro dia, pois só eu sei a dor do último”.

domingo, 1 de agosto de 2010

Inútil

Embora não se ouça falar muito dela atualmente, Lygia Fagundes Telles é uma das mais renomadas escritoras da Língua Portuguesa, tendo, inclusive, publicado inúmeros de seus escritos em outros idiomas. Embora o pretenda fazer em breve, ainda não li inteiramente uma obra de sua autoria. Mas, enquanto isso não acontece, vou me deliciando com os fragmentos da poesia de Lygia que encontro, sem dificuldades, na Internet.

Em um fórum virtual, movimentado por milhares de fãs da escritora, encontrei o trecho a seguir, extraído do livro “Ciranda de Pedra”: “É preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida. A música. Este céu que nem promete chuva. Aquela estrelinha nascendo ali... está vendo aquela estrelinha? Há milênios não tem feito nada, não guiou os reis magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos... apenas brilha. Ninguém repara nela porque é uma estrela inútil. Pois é preciso amar o inútil porque no inútil está a beleza. No inútil também está Deus”.

Imediatamente após ler essas palavras, meus olhos se viram frente a uma janela, de onde pude avistar a beleza daquilo que, secretamente, Lygia chamada de “inútil”, mas que, de fato, é o que dá verdadeira utilidade às nossas vidas.

É preciso aconselhar um amigo, ainda que este nunca venha a seguir as pistas que você dá, ainda que ele nunca se dê conta do quanto são importantes os caminhos que lhe são apresentados durante aquelas conversas madrugada adentro e esquecidos dia afora. É necessário amar também as palavras que são ditas sem por que, aquelas que não desejam nada além de ser ditas, apenas pelo prazer de ser verbalizadas. Uma declaração de amor feita numa manhã comum de segunda-feira, uma conversa banal entre pessoas que se gostam, uma quente discussão entre quem já se gostou um dia e não sabe mais para onde ir. Onde está a utilidade disso? Inútil é não viver nada.

Vivemos numa sociedade baseada na troca, no capitalismo que vende e compra sorrisos, no consumismo que nos transforma em produtos, expostos nas prateleiras das festas, consumidos pelas embalagens e sendo desprezados pelo verdadeiro conteúdo. Numa realidade onde só têm valor as utilidades práticas, como aproveitar o dito inútil, já que este não tem aparentes objetivos nem metas bem traçadas? Treinando o olhar.

Não me interessam apenas as utilidades científicas das flores, mas também a utilidade que eu enxergo nelas, podendo transformá-las em rima ou em verso, em tragédia ou em riso, em saudade ou em presença. Baseados somente em trocas, na utilidade daquilo que ganharemos amando e no que receberemos lá na frente se fizermos algo agora, estamos nos transformando em moedas, que só têm valor quando trocadas por outras. Nesta dança de valores, acontece o verdadeiro troca-troca: útil ficamos nós; inútil fica a vida.

domingo, 25 de julho de 2010

O olhar de arco íris

O som estava alto e a festa já tinha dezenas de corpos se chacoalhando, no ritmo eletrizante das músicas. De repente, notei que você lançava olhares perdidos para a pista de dança, meio que tentando encontrar, naquele mar de rostos bonitos, algum corpo que também conseguisse brilhar por dentro.

Aí, não posso negar que fiquei um pouco confuso, tendo sido inevitável questioná-lo se estava tranqüilo vislumbrar tantas possibilidades de desbravar outros mundos e, talvez, duvidar da certeza de já ter encontrado a terra certa. Sem titubear, você me respondeu: “Tá tudo legal. Estou muito bem acompanhado”.

Neste momento, acabei descobrindo mais um segredo seu: você carrega um arco íris dentro do olhar. Dizem que este símbolo marca uma aliança de Deus com a humanidade, uma promessa de que jamais haverá novamente uma catástrofe capaz de eliminar a vida no nosso planeta. O seu também é um pacto, firmado entre a beleza de dentro e a de fora, que prometeram que só se transformariam nas sete cores quando fossem capazes de brilharem juntas, sem que a deterioração de uma matasse a eternidade da outra. Hoje, este espetáculo está nítido no seu olhar. Basta um pouco de doçura para percebê-lo.

Na regra, todo arco íris é precedido por uma tempestade, mas até nisso você consegue ser exceção; o seu brilha a todo instante! Faça chuva ou faça sol nas estações climáticas da vida, você permanece com este quadro pendurado no rosto, emoldurado nos olhos, no entanto, tangível apenas àqueles que sabem enxergar pelo coração. Há quem olhe e não veja nada, pois é preciso muita audácia para ousar amar aquilo que os olhos não podem ver.

E tem também aquela velha história de que no final do arco íris tem um pote de ouro. Acho que era isso que todos procuravam ontem, naquela festa. Mas, ao contrário do que dizem as revistas e a televisão, o pote de ouro não pode ser tocado com as mãos: somente em pensamento é que se chega aos lugares mais bonitos. Por desconhecerem isso é que todos dançavam e se esfregavam e se beijavam como loucos, pois acreditam que o ouro está contido no pote do nosso corpo. Não é de se estranhar que, conseqüentemente, existam cada vez mais almas pobres, mendigas: essas se contentam com a frugalidade de um ouro falso, que derrete quando exposto ao sol do dia seguinte.

Já o seu pote de ouro é magnífico: está na extremidade entre uma cor e outra, ficando visível apenas a quem consegue coletá-lo, em moedas verdadeiras, através de cada sorriso dado.

As pessoas andam se queixando, dizendo que quase não se vê mais arco íris por aí. Que sorte a minha! Quando eu te encontrar de novo, terei ainda mais certeza de que não preciso esperar chover para ver um.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

No colo

O Brasil inteiro está acompanhando o drama da atriz e apresentadora da TV Globo, Cissa Guimarães, que perdeu seu filho caçula de forma trágica. Sendo uma das figuras mais carismáticas e expressivas da classe artística, Cissa está recebendo o apoio de inúmeros colegas de trabalho, que, o tempo todo, enviam a ela mensagens de consolo e profunda solidariedade.

Acompanhei várias dessas declarações de amizade à artista, mas uma, em especial, me chamou mais atenção: a da novelista Glória Perez, que, em 1992, passou por uma situação bastante semelhante. A autora sentiu a dor da perda de sua filha, a atriz Daniela Perez, brutalmente assassinada por um companheiro de elenco.

Sobre a morte do filho de Cissa, pelo Twitter, a escritora se manifestou através das seguintes palavras: “Tudo o que eu queria era botar a Cissa no colo. Força, amiga! Te abraço em silêncio...”.

Em sua declaração, Glória ofereceu à amiga o que de melhor pode haver em momentos como este: um colo que dispense qualquer palavra.

Existem situações na vida que dispensam palavras – a morte é a principal delas. Diante delas, reagimos sempre de modo clichê, oferecendo ajuda material, falando demais, verbalizando os pêsames, quando, na verdade, um gesto bastaria para, ao menos, amenizar a dor de algo muito maior do que nosso vocabulário.

Frente a uma trágica perda ou ruptura, como não sentir-se acolhido no colo de quem se ama? Dentro de um colo quente, o inverno parece mais brando, o frio da dor, aos poucos, passa a não nos congelar tanto, já que estamos embalados pelos sentimentos calados de alguém muito especial. Mesmo em silêncio, isso diz muito.

Um colo verdadeiro para o tempo, transformando o instante: embalados por ele, ficamos tão pequenos que aprendemos a ser grandes de novo. Viramos crianças, prestes a conhecer os mistérios de momentos que palavra nenhuma é capaz de preencher: basta a respiração de alguém por perto para dar-nos a sensação de que é possível seguir em frente.

E este colo muitas vezes pode ser oferecido, como bem citou Glória Perez, em silêncio, sem que os ruídos do mundo interfiram na ligação profunda e verdadeira que existe entre olhares que se abraçam sem precisar de mãos.

No colo, no abraço, na mão estendida e nos demais gestos que não carecem de dramatizações ou palavras, tudo pode acontecer. Inclusive, um coração avariado pode sentir-se freado e encontrar novamente o ritmo certo de suas batidas, percebendo que só morre quem deixa de existir dentro de nós.

Sei que é costumeiro sermos todos redundantes diante dos momentos tristes e que temos boa vontade em encontrar frases que possam amenizar a dor de quem amamos. No entanto, não há palavras mais verdadeiras e sutis do que aquelas que dizemos sem precisar dizer nada. O melhor consolo do mundo é dentro de um colo onde cabemos inteiros, sem precisar deixar a dor do lado de fora.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ensaio sobre a cegueira

Já havia lido a obra original, escrita por José Saramago, mas foi assistindo à versão cinematográfica de “Ensaio sobre a cegueira” que tive a oportunidade de visualizar melhor inúmeros detalhes da trama. Sem dúvidas, este é um dos melhores livros que já li – e o filme também não fica muito atrás.

A história gira em torno da epidemia da chamada “cegueira branca”, que, após atingir, subitamente, um motorista no sinal, contamina toda uma região – inominável – e seus moradores – que também só são identificados por características –, sem que nenhum motivo aparente seja descoberto para o surgimento deste mal. Apenas uma mulher fica livre da doença e, durante toda a saga, permanece com a visão intacta, enxergando o horror e o caos em que se transformou o reino dos cegos.

Seria impossível mencionar todos os detalhes da obra aqui, pois são muitos e um acaba sendo mais interessante que outro. Porém, o que fica claro em diversos pontos da narrativa, tanto no livro quanto no filme, é que aquilo não passa de uma metáfora da sociedade em que vivemos, onde os olhos de milhares de indivíduos foram invadidos por um “mar de leite”. Assim como na ficção, nossa cegueira também é branca: estamos envoltos na superficialidade de uma luz que não nos permite ver o que, de fato, importa.

Num mundo cada dia mais capitalista e apegado às coisas tangíveis ao olhar, nossa visão está limitada, ancorada na rasura daquilo que pensamos ver, mas que não passa de uma projeção de nossa cegueira. Somos cegos que, vendo, não vêem. Nossa cegueira é tão branca que nos ofusca a vista, impedindo que sejamos capazes de perceber a beleza de momentos que escuridão nenhuma é capaz de cegar.

“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome; essa coisa é o que somos.” Esta frase está no livro de José Saramago e também é pronunciada, de forma similar, no filme. Cegos, estamos nos deixando guiar pela brancura efêmera do prazer e do dinheiro, o que nos distancia cada vez mais dessa “coisa”, inominável, que somos. A cegueira de que sofremos é cruel, pois pensamos enxergar tudo, entretanto, quando abrimos, de fato, os olhos, somente a solidão nos faz companhia.

Nosso olhar é limitado, mas nossa visão pode ser infinita. Para nos salvar do náufrago da cegueira, é preciso que saibamos enxergar além do que os olhos nos permitem, encontrando a “coisa” que cada um de nós traz guardada dentro de si.

Casamentos estão em queda mais do que a bolsa de valores, alunos agridem professores e dão aulas no quesito criminalidade, relacionamentos começam e terminam num piscar de olhos, sentimentos são banalizados como se fossem mercadorias, pessoas são compradas como se fossem produtos. O caos já está instalado ao nosso redor. Por essas e outras, estamos todos ficando cegos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Quem é o Cristo?

Recentemente, a liturgia da Igreja Católica celebrou a solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo, figuras de extrema importância para a história do Cristianismo. O trecho do evangelho de Mateus narrado nesse dia contou a passagem em que Jesus faz duas perguntas aos discípulos. No relato em questão, o mestre, primeiramente, quis saber: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”; em seguida, os interpelou: “E vós, quem dizeis que eu sou?”.

Ao ouvir um líder religioso comentar o texto citado acima, a pergunta atualizou-se e se instalou em minha mente: “E eu, quem digo que Jesus é?”.

Jesus é o filho de Deus, que sofreu numa cruz para salvar a humanidade do pecado, mas também é, para mim, aqueles que sofrem pelas ruas, coroados pelos espinhos da miséria e da fome. O Nazareno é aquele que caminha ao encontro do outro, que evita que pecadores sejam apedrejados, que não despreza a oferta de um coração rico apenas em amor e afeto. O Cristo é aquele companheiro que nos liberta do marasmo em que estamos pregados, que ameniza o desespero que pesa sobre nossos ombros. O Jesus que eu conheço ainda sorri pra mim.

Nos dias de hoje, inúmeras pessoas que se dizem cristãs devem ter dificuldade para responder quem, para elas, é o Cristo, pois estão aprisionadas a uma visão limitada da figura central e pilar de todas as religiões cristãs. Espera-se ver Jesus nos grandes prodígios, nos milagres mais espetaculosos, nas igrejas mais lotadas, quando, na verdade, o “verdadeiro” Cristo poderia ser identificado nos gestos e situações mais corriqueiras da vida.

Um dia que amanhece de forma bela, o sol despontando sobre as montanhas, os raios ultravioletas aquecendo nossa pele.

Um namorado que te ama e te quer bem, que possui interesse real em sua vida e que, muitas vezes, te faz andar sobre ás águas através de um gesto, de um torpedo no celular, de uma palavra especial.

Um policial que não se vende nem deixa com que a corrupção corroa seu dever de ser a favor do bem.

Um político que não transporta nosso dinheiro na cueca, mas sim o reverte em benefícios e transformações positivas para a sociedade.

Uma pessoa que se preocupa em te agradar, sem medir esforços para isso, e que te faz sentir um verdadeiro bem aventurado.

Imortal, o escritor português José Saramago, ao ser questionado por um jornalista sobre “Como podem homens sem Deus serem bons?", respondeu: “Como podem homens com Deus serem tão maus?”.

Mais do que me redimir dos meus pecados, o Cristo que sigo me ressuscita todos os dias, fazendo com que eu perceba que a pedra dos sepulcros da vida precisa ser constantemente retirada para que seja possível vê-lo. O Jesus verdadeiro é aquele que nos leva ao céu apenas com o calor de um abraço fraterno. Retirar a pedra do sepulcro de dentro é se permitir ressuscitar diariamente para uma vida nova.