Sempre cresci com algo dentro de mim que insistia em me fazer diferente de todos os outros, que viviam sempre me apontando como o patinho feio ou ainda como o intelectual da turma. Não sei ao certo se, de fato, eu era notado e enquadrado em alguns desses predicados ou se tudo não passava de caraminholas que martelavam dentro da minha cabeça. Sabe aquele sentimento que se destaca dentro da gente e quase nunca conseguimos distinguir se é cria da imaginação ou alguém que enfiou o dedo na azeitona da nossa empada? No fundo, o que é ser diferente? Ser diferente não significa imitar algo que alguém determinou como tal. Esse não passa de um imitador. Ser diferente é agir com autenticidade. Os diferentes de verdade costumam causar inveja por onde passam, sentimento este que é manifestado através de risadas e deboches, que nem sempre os diferentes suportam e, por esse motivo, acabam desistindo e se juntando à multidão de iguais. Quando morre um diferente, perde-se muito mais do que um ser humano. Perde-se alguém que decide sonhar, amar, viver e não se importar com o preconceito que com certeza sofrerá ao insistir que a vida ainda é bela.
Constantemente, diferentes são confundidos com chatos. Contudo, muito ao contrário, um diferente difícilmente se torna uma pessoa inconveniente, uma vez que conhece como ninguém a arte das palavras e a riqueza do silêncio, quando ele é necessário. Um diferente só é um casualmente comparado a um pentelho por pessoas menos sensíveis ou por aqueles desavisados. Ao taxar um diferente como esclerosado, louco e desprezá-lo de forma preconceituosa, muitos talentos são rechaçados, milhares de vitórias ficam pra depois e dezenas de esperança são mortas. Só um diferente medroso pode chegar a ser chato.
Quando uma pessoa é realmente diferente, ela é capaz de compreender (com cérebro de elefante) o “por quê” seus amigos, familiares, namorados a agridem tanto e censuram suas idéias futuristas. Uma das caractéristicas de um diferente é nunca acostumar-se. Ele vai estar sempre brigando por uma melhora em sua rua, por uma revolta na civilização, por mais amor no mundo, por menos ódio... Sempre correndo atrás das pipas avoadas, que o vento encarregou-se de levar pra bem longe. Sempre atrás dos sonhos, que as dificuldades do dia-a-dia tornam cada vez mais longe suas realizações.
O diferente começa a sofrer bem cedo. Aos poucos, vai crescendo e sofre mais ainda. Entretanto, sabe que a dor é necessária para o amadurecimento e crescimento de cada indivíduo. Mário Quintana adorava “mistificar” pensamentos: “Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuances de uma cor”. A alma dos diferentes esconde brilho e riquezas inestimáveis e poucos são capazes de aventurar-se nessa descoberta. Os diferentes estão por aí: enfermos, paralíticos, machucados, inteligentes demais, emotivos em excesso. Mesmo após essas linhas mal traçadas, aguardo a aparição do sol, que irá iluminar a noite escura, dando algum sentido à caminhada...




