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Sou um calendário de dez anos atrás,
folhinhas de datas que já mereceram destaque em vermelho, mas que, agora, não são
mais do que dias ultrapassados. Hoje, me pareço com um produto fora do prazo de
validade – acho que esqueceram de me retirar da prateleira. Sou o apetite voraz
pelo que a balança jamais me permitiu alcançar, dois dígitos que, em meio a
milhares de zero, não podem ser mensurados.
Tudo que sou hoje é uma correspondência
aberta que não chegou ao seu destinatário, uma carta emocionante demais que
pararam de ler no segundo parágrafo. Sou a xícara de chá sozinha, sem café ou
qualquer outro líquido que lhe dê algum sentido. Me adocei em excesso e,
portanto, me encaixo nas medidas de poucos cardápios. Sou o líquido que entornou
da chaleira e ficou esquecido sobre o fogão, o fervor de um leite que só se
lamenta depois que já foi derramado.
Perdi na queda de braço e a gula me
acertou os ossos. Como consequência, minha força encheu-se de fragilidades,
estilhando-se ao sacolejar de qualquer vento, esmorecendo antes mesmo do
primeiro round. Tornei-me a lágrima que cai imperceptível no canto do olho, que
escorre pelo cantinho da face e que, sem ter uma mão que a limpe, acaba
perdendo o caminho de virar alegria. Tudo que sou hoje é o sorriso congelado na
foto, a felicidade que foi emoldurada e não consegue se colocar em movimento.
As portas do meu coração foram
arrombadas e, no saqueamento, levaram as minhas jóias de motivação, deixando para
trás apenas o ouro falso da baixa auto-estima. Mas, quando a saudade de ontem
me permitir pensar no amanhã, quando enfim eu descobrir um modo de pagar o
resgate do que perdi, quero muito voltar a ser tudo, quero muito voltar a ser
eu.
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